29 janeiro 2008

Dia 1 - 11:30-12:00

Nada a ver

Tô triste. Meus vizinhos-inspiração se mudaram... ai que dó.
Tipos que eles eram EXATAMENTE o Valêncio e a Luciana. Idênticos.

Tô de luto.

Post em homenagem. ;(






11:30


Sara não conseguia mais pensar. Estava estressada, com raiva e se sentindo completamente injustiçada. Aquilo não estava certo. Pela primeira vez, ela pensou em enfrentar Francisco Gomes diretamente, cara à cara...

S- Droga.

Mas não adiantaria de nada.

Estava sentada com os cotovelos apoiados na mesa. A papelada agora só aumentava... aos poucos, seus colegas iam passando por sua mesa e colocando mais amontoados de papéis; sua caixa de emails ficava cada vez mais entupida; sua hora de almoço cada vez mais distante.

Passou os dedos no rosto. Olhou o relógio.

Já estava há quase 1h massacrando o teclado do computador, e mais de 90% do que ela escrevia nos relatórios saía com grotescos erros de digitação, coisa que a obrigava reescrever tudo algumas vezes. Não agüentava mais fazer um trabalho que definitivamente não era o dela... estava nervosa demais para manter-se concentrada, e aquilo só piorava as coisas.

Sentia-se cansada. E com fome.

Não sabia se Georges estaria no restaurante como ela tinha combinado, mas agora sim ele era seu último suspiro. Somente com alguns dos contatos dele é que ela poderia tentar averiguar por conta algumas pontas soltas na investigação. Ela teria que, infelizmente, vencer o próprio orgulho e fazer as pazes com Georges...

Suspirou.

A fome aumentava, e ela não iria agüentar mais muito tempo ali. Resolveu dar um jeitinho.

Levantou-se calmamente. Pegou alguns dos papéis, colocou em um envelope... olhou para a sala de seu chefe para ver se ele não iria pegá-la no ato. Foi andando para fora da sala e...

- Sara? Aonde vai? Chico não vai ficar feliz com isso não.
S- Não vai? Só vou levar isso aqui para os arquivos...
- Sei...

Continuou andando. Sabia que ninguém a denunciaria. Mesmo que fizessem piadinhas de mau gosto com ela, todos ali eram seus companheiros. Os subordinados de Chico Gomes se mantinham unidos, qual fosse a situação.

Estava tão confiante que não percebeu Chico saindo da sala e convocando alguns agentes.


11:32


- Fique quieto, garoto!...

Fernando estava algemado, e o enorme curativo no abdômen mais atrapalhava que ajudava.

Ele tinha levado um tiro. Aquilo definitivamente não estava nos planos... se bem que, boa parte da ação naquela manhã nunca deveria ter acontecido.

Depois de ter sido baleado, Fernando se tornou um alvo fácil. O Secretário de Justiça José Augusto aproveitou para chutá-lo exatamente onde a bala tinha atingido, deixando-o ainda mais vulnerável. Em dois instantes, Seguranças o algemaram e alguém chamou a polícia.

Por um breve momento, Fernando apagou por culpa da dor intensa, e acordou dentro de uma ambulância, sem camisa, deitado em uma maca. Ouviu os paramédicos dizendo que ele era um “bandido” de sorte e que o tiro foi de raspão. Mas, é claro, para ele, aquilo não era sorte coisa alguma... Perguntaram se ele conseguia se sentar, e ele percebeu que sim – não seria um tiro de raspão que o abateria. Foi então que notou. A ambulância não estava em movimento. Ele não seria levado a um hospital... só receberia alguns cuidados básicos. "Definitivamente contra os direitos humanos, não?..."

Em poucos instantes estava "novinho em folha", palavras do paramédico, e então alguém lhe deu sua camisa rasgada. Foi algemado, enfiado dentro de uma viatura e, agora, estava no prédio da Superintendência Regional. Três agentes o cercavam no elevador.

F- Sabem, eu realmente podia ser escoltado por um de vocês, apenas. Não tenho para onde fugir.
- Já disse pra ficar quieto!

E levou um peteleco na nuca.

O elevador finalmente chegou ao andar estipulado. As portas se abriram, e mais três agentes o esperavam no corredor.

E, agora, eram seis agentes da Polícia Federal que o escoltavam até a sala de interrogatório.

"Devo ser mais importante que imaginava..."


11:32


Fr- É O SEGUINTE, EU QUERO SER INFORMADO IMEDIATAMENTE QUANDO O SECRETÁRIO DE SEGURANÇA CHEGAR!
- Sem problemas, delegado.
Fr- Eu espero que todos tenham entendido o recado! Esse rapaz não é apenas suspeito de espionagem industrial, ele pode estar envolvido em um esquema muito maior! Todo cuidado com ele! É prioridade, entenderam?

Francisco olhou ao redor. Todos ali naquela sala enorme, cheia de mesas bagunçadas, estavam com os olhos voltados para ele. Ele precisava avisar que o interrogatório que estava para acontecer era importante, e que se alguém desse um passo qualquer em falso, uma grande operação fracassaria miseravelmente.

Logo que recebeu o telefonema de um dos assistentes do Secretário de Justiça, Chico não pensou duas vezes em ligar para o Secretário de Segurança André das Neves. Ele se sentia no meio de um duelo entre duas cobras nocivas, sabia disso. Com certeza não iria se posicionar tão fácil. Não antes de uma investigação profunda, um interrogatório muito bem trabalhado...

Percebeu uma mesa vazia. Ele tinha acabado de cancelar o almoço.

Fr- Sara... ALGUÉM SABE ONDE SARA ESTÁ?

Mas todos voltaram seus olhares para suas mesas, e continuaram a trabalhar.

Aqueles agentes não lhe dariam a resposta nem se soubessem.


11:32


J- Então, está tudo certo?
- O delegado responsável ainda não sabe, talvez ele complique. Ouvi dizer que o homem é... impetuoso.
J- Não me importa, eu sei que você dará um jeito nele.
- Bem, não é à toa que sou seu advogado...
J- Não por isso. Não é à toa que eu lhe pago tanto.

José Augusto tinha um curativo quase imperceptível no seu pescoço, onde a faca tinha perfurado. Quem visse de longe poderia até pensar que foi um simples corte enquanto ele se barbeava.

Ele e seu advogado adentraram no prédio da Polícia Federal como se fossem os donos do lugar. O advogado perguntou para onde tinham levado o suspeito de espionagem, e depois de uma breve relutância e algumas frases de efeito como “sabe com quem está falando!”, lhes disseram o andar.

Esperavam o elevador chegar.


11:32


Para não ser pega de surpresa por alguém, Sara tinha resolvido descer dois andares de escada, e só então pegar o elevador. Não queria esbarrar com ninguém conhecido, então nada melhor que se dirigir a outro setor do prédio. Também aproveitaria para avisar uma colega de que não poderiam almoçar juntas.

Já estava voltando do final do corredor, em direção aos elevadores, quando notou uma movimentação de agentes indo em sua direção. Não tinha para onde ir, e, fosse o que fosse, já estava praticamente em sua hora do almoço... resolveu passar por eles como se não soubesse de nada.

Foi quando percebeu, enquanto eles se aproximavam. Eram seis homens carregando um suspeito com a camisa rasgada, aberta. Podia-se ver um curativo enorme no lado esquerdo de seu abdômen.

S- "Muitos agentes... quem é este suspeito? Ele está ferido, por que tanto cuidado?"

Não conseguiu tirar os olhos do homem, tentando lembrar-se de alguma ficha, alguma investigação em que ele estivesse envolvido... quem era ele?


11:33


- Atenção, atenção, APF Silva, na escuta?

Um dos agentes soltou Fernando e pegou o rádio que estava apoiado em seu cinto.

- Pode falar, na escuta.
- O delegado avisou, se virem o Secretário, avisem imediatamente! Repito, se virem o Secretário, avisem imediatamente!
- Correto, avisar delegado sobre Secretário. Entendido.

"Secretário?"

Tentou formular algum raciocínio sobre aquela mensagem, mas logo antes que pudesse fazer, percebeu uma bela agente de lindos olhos verdes, carregando um envelope e vindo na direção oposta. Ela o encarava com suspeita.

Forçando os agentes que o carregavam a fazer uma parada indesejada no meio do corredor, ele a encarou e resolveu admitir a posição de “suspeito importante” e agir como um idiota. Pensou em dizer algumas palavras.

F- Cuidado para não tropeçar, agente. Olhe por onde anda, não para mim.
- Quieto!
- Chega de gracinhas, miserável!

Mas, antes de ser novamente empurrado (e de levar um discreto soco na parte dos rins), ele pode observar a expressão perplexa daquela jovem se transformando em uma expressão de aversão hostil.


11:34


S- Mas que miserável!

Sara quase voltou para dar ela mesma uma boa sova naquele suspeito, mas se conteve. Amassou o envelope que carregava, mas, se conteve. Aquele caso parecia grande, e no momento, tudo o que ela não queria era se envolver com algo que chamasse a atenção de Francisco.

Com muita força de vontade, resolveu seguir em direção aos elevadores. Quando chegou até lá, os mesmos chegaram ao andar¹.

Surpreendeu-se com os dois homens que saíram do elevador.

J- Agora, para que lado vamos?
- Deixe-me checar. Senhorita...?
S- Agente Menezes, senhor.
- Que seja. Pode-me dizer onde ficam as salas de interrogatório?
S- Posso saber qual o interesse do Secretário de Justiça nestas salas?
J- Então me reconheceu... tudo bem, agente Menezes, meu interesse é saber onde elas estão. Preciso de um mandato para lhe fazer esta pergunta?

Sara percebeu que alguma coisa muito estranha estava acontecendo ali, mas não podia negar aquela informação a um Secretário.

S- Podem ir pela esquerda. Imagino que o suspeito que querem ver está em uma das últimas salas.
- Muito obrigado, senhorita...

Sem pestanejar e nem mesmo agradecer, os dois homens passaram por ela como se fosse invisível e se dirigiram para as salas, à esquerda. Sara apenas observou aquela cena. Primeiro, um suspeito ferido carregado por seis homens, como se fosse a maior ameaça que o país já teve... e, agora, a presença do “ilustre” Secretário de Justiça, um homem suspeito de muitas coisas, todas as quais ninguém podia provar.

Quando percebeu, as portas do elevador se fecharam novamente, e ela teria que esperar mais alguns instantes. Enquanto isso, continuou pensando, tentando juntar as pontas do que tinha acabado de ver...


11:35


André das Neves era um homem muito cuidadoso. Secretário de Segurança do Estado, nunca entendeu porque tinha sido escolhido para tal. Claro, ele já tinha trabalhado como Superintendente Regional há alguns anos atrás, mas todos sabiam que seu envolvimento sempre fora voltado mais para a Inteligência do que para ações realmente efusivas. Seu intuito sempre fora o de “acabar com o mal pela raiz”, e acreditava que, para isso, somente investigação e ações judiciais eram suficientes. Tanto que, mesmo depois de sair do cargo e se envolver com a iniciativa privada, nunca deixou de ter um “faro” para investigações – e nunca deixou de fazê-as.

Foi pensando desta maneira que, há alguns meses atrás, percebeu uma movimentação estranha entre alguns delegados, e notou um crescimento estranho na verba da Secretaria de Justiça. Este foi o estopim para que conhecesse Francisco Gomes, e para que colocasse a Polícia Federal no caso – tudo muito discretamente para que não fosse envolvida a Corregedoria, tão mal falada e suspeita de todo tipo de caso de corrupção.

Agora, seu “companheiro” de investigação tinha esbarrado com um suspeito que nem ele imaginava o quão importante era. Por sorte, tinha sido chamado para o interrogatório.

Foi avisado de que a imprensa tinha começado a se aglomerar na frente do prédio da Polícia Federal; então, para não criar qualquer ligação de sua pessoa com o caso, entrou pelos fundos e subiu até o andar do delegado responsável pelo elevador de serviço.

Depois de observá-lo dar um esporro em alguns agentes que não o “avisaram” de sua chegada, André entrou na sala de Chico e ambos começaram a conversar.

A- Eu fiquei sabendo do que houve. Tenho interesses nesse caso, Francisco, sabe disso.
Fr- E foi por isso que o chamei. Em breve iremos interrogar o suspeito, e o senhor pode observar, pode intervir. Espero que seja útil.
A- Eu já vi este homem antes, o tal Fernando...
Fr- Fernando Esteves da Silva. Pegamos pelas digitais. Devo dizer, a ficha está limpíssima.
A- É falsa, muito provavelmente. Ele esteve em outra empresa há alguns meses... bom, está nos relatórios.
Fr- Eu sei... quero ver este moleque explicar isso. Vou até a sala de interrogatórios, agora. Quer me acompanhar?
A- Antes, gostaria de conversar com um de seus agentes, o que esteja encabeçando a investigação que eu sugeri. Preciso comparar algumas informações.

Francisco percebeu que ele tinha acabado de demitir a agente responsável, e que, pior ainda, ela não se encontrava ali. Não podia dizer ao Secretário que tinha destituído a responsável logo hoje, em cima de duas descobertas tão importantes quanto o registro telefônico e a captura de Fernando. Até mesmo porque o homem diria para correr atrás e desfazer sua ordem... ele mesmo sabia que teria que agir desta maneira, engolindo qualquer resquício de orgulho.

Fr- Ahn... Secretário, façamos o seguinte: eu irei até a sala de interrogatórios fazer as burroc... digo, as burocracias necessárias, e quando voltar trarei a agente responsável.
A- Uma agente? Que bom... mulheres tendem a ter uma inteligência diferencial nestes casos. Conseguem notar algumas facetas que-
Fr- Sim, sim, exatamente. Ela tem até novidades. Espere aqui. Acho melhor nos encontrarmos no interrogatório, é mais seguro para o senhor. Eu o chamo.
A- Tudo bem.

E o delegado Chico Gomes saiu correndo tentar descobrir onde estava Sara, e a quantas andava o suspeito Fernando.


11:37


- Entendam, senhores, meu cliente só quer conversar com seu agressor.
- O senhor sabe muito bem que é mais que isso.
- Se deixarmos o senhor Secretário de Justiça entrar na sala de interrogatório, não seria apenas o arruinamento da investigação, mas também o envolvimento precoce de uma secretaria em nosso trabalho.
J- Ora, por favor! Eu estou aqui como um civil que foi agredido! Só quero ter meu tempo com esse rapaz, quero entender o porquê de ele ter feito isso!
- Eu já vi inúmeros agentes permitirem uma conversa entre o agressor e a vítima antes de começarem as investigações. Francamente, ele só foi um refém. Soube muito bem se defender, que mal um rapazinho algemado e ferido pode fazer ao meu cliente?

Os agentes se entreolharam. Não estavam certos daquilo.

- E se os senhores tanto querem envolver meu cliente nesta situação como o Secretário de Justiça, posso muito bem arranjar um processo contra cada um dos senhores por obstrução de informação. Vale lembrar que meu cliente tem ótimos contatos na Ordem, e pode sugerir alguns juízes para o caso que... bem, os senhores me entenderam.

Agora, os agentes se entreolharam com outra expressão e, simplesmente, abriram caminho para José Augusto.

J- Ora, muitíssimo obrigado...

E entrou na sala.

- Não preciso dizer para deixarem isso de fora dos registros, não é mesmo? Sem gravações, por favor.

E os agentes se entreolharam mais uma vez... com olhar tímido, recheado de fraqueza moral.


11:37


Sara continuava perdida em seus pensamentos, então se tocou de que não conseguiria almoçar com Georges desta maneira. Não adiantava se envolver em sua investigação quando sua cabeça estava totalmente imersa naquelas cenas anteriores. O envelope que segurava já estava totalmente amassado, e ela nem mesmo lembrava mais o que tinha colocado ali dentro.

O elevador, depois de demorar, finalmente chegou. Mas ela resolveu não descer. Sem hesitar, foi em direção à sala de interrogatório.

Caminhando com passos firmes, e o olhar fixo no homem que estava com o Secretário de Justiça José Augusto, ela já começava a formular as perguntas a fazer; em como convencer os agentes a deixá-la participar do interrogatório; e em como explicar tudo aquilo depois para-

Fr- SARA!

Era Chico. Ele tinha acabado de puxá-la pelo ombro, e estava com uma expressão colérica.

S- Chico!...
F- Quer me dizer onde a senhora pensava em ir? Onde estava?! Nós estamos em uma situação prioritária aqui!!
S- Me desculpe, eu-
Fr- Sabe quem está aqui, mocinha? O Secretário de Segurança! Ele quer te ver!
S- O Secretário de...
Fr- Ele quer ver a responsável pelo caso das empresas! Onde a senhora estava?
S- Mas eu fui destituída dessa investigação.
Fr- Mas ele não sabe, e infelizmente você é a que mais está envolvida, a que tem as coisas frescas na cabeça. Onde estava? Estava fugindo do seu trabalho com os relatórios?
S- O Secretário de Segurança quer me ver? Eu acho bom então vê-lo o mais rapidamente poss-
Fr- Estava fugindo!!!

Todos os agentes, além do advogado, estavam parados observando a discussão dos dois. Não conseguiam ouvir muito bem, mas pelas gesticulações, aquela agente estava em apuros.

S- Chico, eu...
Fr- Francamente!! Quanta irresponsabilidade!! Imagine, eu ainda te deixei encabeçar uma investigação!

Ela percebeu que todos no corredor olhavam para eles, e sabia que não era bom nem para seu ego, nem para o tal homem do Secretário de Justiça. Puxou seu chefe para dentro de uma sala qualquer ali, tentando fugir dos olhares e ouvidos.

S- Chico, calma!... se eu não tivesse fugido, não teria visto o que acabei de ver.
Fr- Se não tivesse fugido, talvez ainda tivesse seu emprego!
S- Sabe que não pode me demitir agora, como ficaria André das Neves?
Fr- Eu dou meu jeito, mocinha!! E afinal, o que de tão importante que a senhora viu?? Por que me puxou para esta sala?!
S- Não tem somente um Secretário no prédio.
Fr- O quê?
S- José Augusto está aqui. E veio acompanhado de um... não sei, um assessor. Um engravatado qualquer. Ele estava observando nossa conversa agora.
Fr- Mas que... quando os viu?
S- Poucos minutos. Eu os peguei quando saíram do elevador. Foi só o tempo de eu esperar outro chegar quando resolvi seguí-los e... Chico, eles querem alguma coisa com o tal suspeito que veio agora pouco.
Fr- Onde eles estão? Agora!!
S- Queriam saber onde eram as salas de interrogatório, provavelmente estão sujando o suspeito e-
Fr- Escute aqui, garota, sua atitude de hoje foi completamente imperdoável, mas novamente você descobriu alguma merda realmente importante. Não vou te demitir ainda, pode voltar para seu cargo e etc.
S- Bom, obrigada...
Fr- Aliás, se quer tanto almoçar, eu te dou essa permissão.
S- Francisco, eu- eu achei que ia participar disso agora!
Fr- Eu disse permissão? Quis dizer ORDEM! Ora, estava tão cansada com seus relatórios, não é mesmo, que até fugiu para o almoço! Pois bem, que sua vontade seja feita. VÁ ALMOÇAR. Não quero te ver neste prédio nem mais um segundo!
S- E André das-
Fr- Já disse que lido com ele! ANDE! ALMOÇO, JÁ!

Sara já tinha passado do seu limite de nervos. Amassou o envelope que segurava e arremessou para qualquer canto pouco antes de sair batendo a porta na cara de seu delegado.


11:39


F- Eu acho curioso ter levado um tiro no abdômen. Que eu saiba, o tiro deveria ter sido na perna... ombro... deveria ter sido uma tentativa de imobilização, não uma tentativa de assassinato.
J- Meus Seguranças particulares não são policiais. Eles atiram para abater o suspeito. Teve muita sorte, muita... o novato já foi demitido. Não suporto este tipo de erro na mira.

Fernando continuava sentado, algemado à uma barra atrás da cadeira, na parede, e agora sentia novamente uma dorzinha por culpa do ferimento. O outro percebeu.

J- Hum... pelo jeito seu curativo precisa ser trocado. Sabe, já está sujo de sangue novamente.
F- Não diga?
J- Eu tenho um conselho. Acho bom que o senhor... bom, que o senhor faça a sua parte, e não conte nada de mais para esses abutres. Senão, pode imaginar o que lhe vai acontecer, não é mesmo?
F- Não sei. Eu já levei um tiro de raspão, o que vai ser? Vou levar um soco de raspão? Vai tentar me matar, de leve?

José Augusto deu uma risadinha para esconder o nervoso. Aquele homem com quem lidava era imprudente, porém esperto demais.

F- E o tal Georges... Teixeira? Este é o nome dele?

Fernando somente observou a expressão de susto de José Augusto, e abriu um sorrisinho. Percebeu uma abertura na tal armadura do homem, e investiu contra ele.

F- Ele me viu... ele te viu, te ouviu. Ei, o que vai ser dele, afinal? Vai atirar nele de raspão também?

Resolveu continuar.

F- Estive pensando, o que o Secretário de Justiça do Estado estava fazendo no escritório de um empresário qualquer da iniciativa privada... o que devo responder quando me perguntarem isso? Por que, bem, se eu fosse da Polícia Federal, essa seria uma das perguntas que-

O Secretário voou para a mesa, e jogou suas mãos ferozmente sobre ela. O barulho deveria ter assustado Fernando, mas ele sequer moveu as pálpebras.

Mas, antes que o Secretário pudesse responder à altura, os dois ouviram os berros vindos do lado de fora da sala.


11:42


Fr- Eu não gosto do que está acontecendo em minha delegacia!
- Delegado, são apenas alguns instantes. O senhor Secretário já sairá de lá. É só uma conversinha.
Fr- Uma conversinha em minha delegacia, minha sala de interrogatório!


Francisco estava muito mais eufórico e irritado que quando falou com Sara. Os agentes estavam acuados, e o advogado tentava manter sua "coragem".

- Vamos, Francisco, eu-
Fr- Quem te disse que podia me chamar pelo nome??! Delegado Gomes para o senhor! E chega disso, chega! É bom o senhor tirar essa sua bunda engomadinha da minha frente, senhor advogado, porque eu vou entrar lá e fazer a minha parte! O Secretário de Justiça que faça a dele, processando o elemento! Com licença!

Chico empurrou o advogado de João Augusto, passou pela muralha de Seguranças que estavam guardando a sala de interrogatório como se eles não existissem, e pediu para que o agente responsável abrisse a porta.

Fr- Anda! Quer levar uma suspensão, homem??
- Isso seria anticonstituci-
Fr- Não me interessa! Em minha departição, mando eu! E o senhor me dê licença, advogado, já disse!
A- É bom abrirem caminho para o delegado Francisco Gomes, e agora.

Sem pestanejar, um agente destravou a fechadura e todos eles se afastaram da porta.

Fr- Obrigado, André, mas eu podia me virar sozinho.

Em menos de um segundo, Chico abriu a porta da sala de interrogatório e deu de cara com o outro Secretário, o senhor José Augusto.

J- Ora, com licença, senhor delegado... já estou de saída.

José tentou passar pelo homem, mas este segurou-o pelo braço.

Fr- Calminha aí, Secretário.
J- O que disse?
Fr- Posso saber o que o senhor foi fazer conversando com meu suspeito?
J- Sabe muito bem que, se quiser descobrir, é só observar os registros mais tarde.
- Espere, o senhor disse que-
J- Infelizmente, agora tenho um compromisso inadiável... com licença.

Puxou o braço com força, quase dando um soco “sem querer” no agente que tinha ousado comentar sobre a falta de registros. Ajeitou o paletó, a gravata.

José Augusto achou que já estava livre, mas foi somente dar alguns passos que, desta vez, foi ele quem deu com a cara em alguém. Quando percebeu quem era, abriu um enorme e falso sorriso.

J- André das Neves! Meu amigo, André... como vai?
A- José Augusto... eu vou bem, e você? Soube que teve uma manhã relativamente agitada.
J- É... mas nada que eu já não tenha resolvido, meu caro. Com licença...

Tentou desviar do outro secretário, mas este colocou-se novamente em seu caminho. André era um pouco mais baixo que José, então tinha que levantar os olhos levemente para lhe dirigir a palavra. Apesar disso, encarava-o sem medo.

A- Sabe, eu acho engraçado como este mundo é pequeno... quais as chances de um Secretário se envolver com...

Fingiu que procurava a palavra. Todos observavam a cena – inclusive Fernando, já que a porta se mantinha aberta.

J- Com... com o que, meu caro?
A- Com uma investigação da Polícia Federal.
J- Ora, isso só foi um acaso. Estava no lugar errado, na hora errada...
A- Estava?

A paciência do Secretário de Justiça estava por um fio, enquanto que a do Secretário de Segurança se mantinha inabalada.

J- É... sabe como é, não é mesmo? Com licença, eu realmente tenho um compromisso que-
A- Vamos, podemos conversar sobre o fato de o senhor estar no lugar errado, na hora errada? Deixe seu assessor lidar com seus compromissos. Eu, como Secretário de Segurança, tenho um interesse neste seu... contratempo matinal.
- Com licença... infelizmente, não sou um assessor, mas sim o advogado do Secretário. E, bem, se o senhor quiser conversar formalmente com meu cliente, não vejo mal algum; estarei esperando a intimação de testemunho a qualquer momento.

André encarou o advogado, que parecia ser um mauricinho filhinho-de-papai de tão “perfeita” era sua aparência. Terno impecável, cabelo impecável, sorriso dissimulado no rosto. E parecia completamente disposto a atrapalhar sua vida, caso continuasse a insistir no depoimento de José Augusto.

Abriu um enorme sorriso, tão falso quanto o de José, e resolveu sair do caminho dos dois.

A- Ah, desculpe-me, José. Outro dia conversamos, não é mesmo? Está ocupado.
J- Sabe que sempre é bem vindo em meu gabinete na secretaria de justiça!
A- Falo o mesmo sobre meu gabinete na secretaria de segurança.
J- Até mais ver!

E o homem saiu apressadamente, quase tropeçando, sem olhar para trás. André o acompanhou com os olhos... um dia aquela convivência de aparências acabaria, e eles teriam que resolver seus problemas.

Fernando só observou a cena... percebeu exatamente o que estava acontecendo; quem eram os mocinhos e quem eram os vilões. Notou em que, de fato, tinha se envolvido. Pelo menos, esta parte do quebra-cabeça estava um pouquinho mais clara...

O silêncio foi interrompido por Chico, que suspirou profundamente com muita raiva, como se um touro bufante. Definitivamente não estava satisfeito com o que tinha acabado de acontecer debaixo de seu nariz. Então, olhou para o suspeito, que mantinha um sorrisinho que nada lhe agradou.

Fr- O que está olhando, panaca? PODE TIRAR ESTE SORRISO DO ROSTO, AGORA. Você vai ver o que acontece quando eu estou nervoso.

E trancou a porta.


12:00









PS¹: sim, tudo a ver com "Antes de entrar no elevador, certifique-se que o mesmo está parado no andar". Não consigo mais me livrar disso quando falo de elevadores XD (vide anja)
PS2: eu ia fazer o almoço da Sara tbm neste post... mas ficou grande demais. Melhor guardar pro próximo huhuhu :D
PS3: eu dei uma boa metida de mão no aprofundamento da história aqui. Ficou chato? Falem sério, quero saber mesmo.


por Tatah, às 03:56 -

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Pylon: (inglês) torre de alta voltagem.

Uma simples música estimulante... ou uma droga poderosa?
Uma coisa é certa: os usuários nunca mais terão suas mentes como eram antes.






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